A ficção científica sempre carregou um equívoco no próprio nome. Durante décadas, fomos ensinados a enxergá-la como um gênero interessado em prever o amanhã. Carros voadores, cidades automatizadas, inteligência artificial, viagens interestelares. Mas o cinema nunca falou realmente sobre o futuro. Sempre falou sobre o presente. Metrópolis nunca foi sobre o século XXI. Blade Runner nunca foi sobre 2019. Filhos da Esperança jamais tentou adivinhar 2027. Todos esses filmes usaram o amanhã para tornar visíveis as angústias do tempo em que foram produzidos.
Futuro Futuro, de Davi Pretto, parece compreender profundamente essa tradição. Seu Brasil de um futuro próximo não impressiona pelo excesso de tecnologia. Pelo contrário. O que primeiro chama atenção é a permanência da pobreza, da precariedade e da desigualdade. A inteligência artificial chegou. O progresso técnico também. Mas a promessa de que a tecnologia reorganizaria a vida coletiva continua sendo apenas isso: uma promessa. O futuro imaginado pelo cinema durante tanto tempo finalmente chegou, e descobrimos que ele continua distribuído de maneira profundamente desigual.
Existe uma escolha política muito forte nessa construção. Hollywood costuma imaginar futuros em que as cidades são dominadas por arranha-céus luminosos, telas gigantes e interfaces sofisticadas. Pretto faz quase o movimento inverso. Seu futuro parece úmido, gasto, cansado. A tecnologia não substitui a exclusão social; apenas aprende a conviver com ela. Não existe contradição entre inteligência artificial e miséria. Existe complementaridade. O filme parece perguntar: por que imaginamos que o avanço das máquinas resolveria problemas que nunca foram tecnológicos?
É nesse cenário que aparece K, um homem sem memória. A princípio, a amnésia poderia funcionar apenas como um recurso narrativo, uma maneira de criar mistério. Aos poucos, porém, ela assume outra dimensão. K não perdeu apenas suas lembranças. Perdeu a possibilidade de organizar uma identidade. Afinal, quem somos quando já não conseguimos contar nossa própria história?
Essa pergunta atravessa o filme inteiro.
Vivemos dizendo que somos feitos de escolhas. Talvez sejamos feitos de lembranças. Quando elas desaparecem, sobra apenas um corpo atravessando o mundo sem conseguir responder à pergunta mais simples que existe: “quem está vivendo esta vida?”
A presença da inteligência artificial torna essa crise ainda mais interessante. Em muitas narrativas contemporâneas, o medo está na possibilidade de as máquinas desenvolverem consciência. Futuro Futuro desloca completamente esse eixo. O problema não é que a inteligência artificial passe a lembrar demais. É que os seres humanos começam a lembrar de menos.
Essa inversão diz muito sobre nosso tempo.
Produzimos fotografias compulsivamente para esquecer de olhar. Registramos tudo para não precisar guardar nada. Delegamos memórias aos celulares, trajetos aos aplicativos, decisões aos algoritmos.
Talvez a inteligência artificial nunca substitua nossa inteligência. Talvez ela apenas ocupe o espaço deixado por ela.
Há algo profundamente melancólico nisso.
A cidade filmada por Leonardo Feliciano parece existir permanentemente entre duas épocas. Não é uma distopia monumental nem um futuro reluzente. É um espaço onde o amanhã chegou sem apagar completamente o ontem. Chove com frequência. O concreto permanece áspero. As cores parecem conter uma camada constante de desgaste. O futuro brasileiro imaginado pelo filme não possui brilho cromado. Possui infiltrações. Essa talvez seja uma das imagens mais honestas do cinema nacional recente: um país onde até o futuro envelhece antes de acontecer.
Também chama atenção a figura do clickworker que acolhe K. Durante muito tempo, a ficção científica imaginou trabalhadores substituídos pelas máquinas. Hoje percebemos um fenômeno diferente. Muitas máquinas aparentemente inteligentes continuam dependendo de milhares de pessoas invisíveis realizando microtarefas, alimentando bancos de dados, corrigindo erros, organizando informações. O trabalho não desapareceu. Tornou-se apenas mais invisível. O filme captura essa transformação sem transformá-la em discurso. Basta observar quem permanece trabalhando enquanto toda a conversa pública gira em torno da inteligência artificial.
Talvez seja justamente aí que Futuro Futuro encontre sua ideia mais potente. A inteligência artificial nunca aparece como espetáculo. Ela surge como infraestrutura. Quase como eletricidade. Está em toda parte, mas ninguém parece verdadeiramente impressionado com ela. Esse detalhe muda completamente a percepção do filme. A tecnologia deixa de ocupar o centro da narrativa. O centro continua sendo o ser humano e sua dificuldade histórica de construir algum sentido para a própria existência.
Existe um aspecto particularmente brasileiro nessa abordagem. Nosso cinema raramente investe na ficção científica porque durante muito tempo acreditou que o gênero exigia grandes orçamentos. Davi Pretto demonstra que talvez estivéssemos olhando para o lugar errado. A ficção científica nunca dependeu de efeitos visuais. Ela depende de ideias. Basta uma pequena alteração na realidade para que todo o presente se revele sob outra luz. O futuro de Futuro Futuro é inquietante justamente porque parece possível. Não exige enormes cidades digitais. Basta prolongar algumas tendências que já atravessam nossas ruas.
Também impressiona a recusa do filme em oferecer respostas confortáveis. K procura um lugar ao qual pertença, mas a narrativa parece desconfiar da própria ideia de pertencimento. Talvez ninguém encontre definitivamente esse lugar. Talvez pertençamos apenas aos vínculos que conseguimos construir enquanto caminhamos. Essa percepção torna a jornada do protagonista menos uma investigação policial sobre sua identidade e mais uma reflexão filosófica sobre aquilo que realmente constitui uma pessoa.
Ao longo da história do cinema, personagens sem memória costumam buscar um passado perdido. Em Futuro Futuro, tenho a impressão de que a direção faz um movimento diferente. O passado importa, evidentemente, mas apenas porque ainda existe um futuro possível. A memória deixa de funcionar como prisão e passa a funcionar como condição para imaginar qualquer amanhã. Não existe futuro para quem perdeu completamente a capacidade de lembrar.
Talvez seja por isso que o título seja tão bonito. Não “o futuro”. Mas Futuro Futuro, como se o primeiro futuro fosse apenas tecnológico e o segundo, humano.
O primeiro já chegou. O segundo continua em disputa.
Quando os créditos aparecem, permanece uma sensação curiosa. Não a de ter assistido a um filme sobre inteligência artificial, mas a um filme sobre fragilidade. Fragilidade da memória, das relações, do trabalho e da própria identidade. Davi Pretto parece sugerir que nenhuma tecnologia será capaz de responder às perguntas que realmente importam. Quem somos? O que escolhemos lembrar? E quanto de nós continua existindo quando essas lembranças desaparecem?
No fim, Futuro Futuro talvez não esteja imaginando o mundo de amanhã. Está perguntando se ainda reconheceremos uns aos outros quando esse amanhã finalmente chegar. Em uma época fascinada por máquinas que aprendem cada vez mais rápido, o filme faz uma pergunta muito mais urgente: o que acontece quando somos nós que começamos a esquecer?

